INTERNACIONALIZAÇÃO PARA UMA CIDADANIA GLOBAL

INTERNACIONALIZAÇÃO PARA UMA CIDADANIA GLOBAL

EDUCAÇÃO_Marcelo Luna fala sobre a internacionalização do currículo.

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O sonho de estudar em outro país é acalentado por adolescentes e jovens de todo o mundo. As imagens que lhes vêm à cabeça são as de conhecer culturas e línguas diferentes e de voltar como um cidadão global. Por fotos, as conversas a respeito das características gerais do país visitado, da família anfitriã, da escola ou da universidade frequentada costumam acontecer, animadamente, nos ambientes familiares e nas rodas de amizade. Pelas experiências positivas apresentadas, os parentes e amigos que ainda não viajaram têm despertado ou mantido o mesmo sonhar.

Aqueles que promovem essa “mobilidade” o fazem por motivação não diferente. Familiares e outras instituições também esperam que os estudantes aproveitem o investimento para se desenvolverem acadêmica e profissionalmente. Entre outros conhecimentos e competências desejáveis, destacam-se o conhecimento linguístico e a competência comunicativa intercultural. Trata-se de aprender ou aprimorar-se na língua do país estrangeiro; trata-se de se apropriar de um complexo de habilidades para desempenhar efetiva e adequadamente quando em contato com indivíduos linguística e culturalmente distintos. Para a família, a empresa e o governo, um estudante com competência comunicativa intercultural tem, em tese, mais sucesso nas interações, e, assim, maior empregabilidade.

Quanto aprendem da língua estrangeira? Quão competentes interculturalmente se tornam? É possível, além de necessário, internacionalizar o currículo na própria escola, no próprio campus do estudante, garantindo a todos os conhecimentos e as competências desejadas pela sociedade. Pelo título deste ensaio, responderei à última pergunta. As demais interrogações demandam os resultados de pesquisas em desenvolvimento por pesquisadores que, como eu, se dedicam à avaliação de programas de mobilidade.

Nos últimos anos, o foco do processo de internacionalização das instituições de ensino tem-se voltado para o seu elemento definidor – o currículo. Isso porque a mobilidade internacional discente, embora crescente, não consegue abranger sequer 1% de todos os estudantes. Seguindo a tendência da Europa e de países como a Austrália, as escolas do mundo inteiro preparam-se para o desenvolvimento de atividades chamadas de “internacionalização doméstica”. Trata-se de um processo de reformulação dos currículos dos cursos e das consequentes práticas de ensino e de avaliação na escola, no campus, visando à formação do cidadão global.

A internacionalização do currículo é um processo que deve envolver a todos, não apenas os estudantes que saíram ou que sairão da sua escola, do seu campus para uma instituição estrangeira. A motivação para tal é que as demandas sociais, em geral, e do mercado de trabalho, em particular, são e serão iguais para todos. Para o exercício profissional, as habilidades e os conhecimentos que se requerem são ainda mais reveladores do quanto que as nossas escolas e universidades precisam, pelo currículo, fomentá-los e desenvolvê-los.

A instituição escolar que, historicamente, apresenta dificuldade em lidar com a pluralidade, silenciando-a ou neutralizando-a, é, mais uma vez, chamada a abrir espaços para o cruzamento de culturas. Isso porque são as salas de aula e toda a ambiência escolar que abrigam situações relacionáveis à competência comunicativa intercultural. A propósito, tal tema e objetivo marcaram o Fórum Juventude Europa – Lusofonia, ocorrido recentemente na Universidade de Coimbra, em Portugal.

Devo aqui também citar o nosso próprio Brasil e as suas instituições escolares, marcados que somos por migrações crescentes e por turmas multiculturais. Como abordá-las? Pela internacionalização do currículo para uma cidadania global. Sobre essa base, toda a escola, todo o campus pode assumir e perseguir os objetivos de formação de um cidadão que conheça o mundo, em suas manifestações linguístico-culturais. Aprendendo com a Oxfam International, uma das maiores ONGs do mundo, deixo aqui, ao leitor, a foto do estudante ambientado num currículo internacionalizado pela educação intercultural: está ciente da amplitude do mundo e do seu papel como cidadão; respeita e valoriza a diversidade; tem uma compreensão acerca de como o mundo opera em termos econômicos, políticos, sociais, culturais, tecnológicos e ambientais; indigna-se com a injustiça social; participa da comunidade e com ela contribui em âmbito local e global; deseja agir para fazer o mundo mais sustentável; e assume responsabilidade por suas ações.

*Publicado originalmente na Acrópolis Magazine 91.

*José Marcelo Freitas de Luna Doutor em Linguística - Universidade de São Paulo | Professor do Mestrado e Doutorado em Educação da Univale | Professor visitante da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra | mluna@univali.br

*José Marcelo Freitas de Luna
Doutor em Linguística – Universidade de São Paulo | Professor do Mestrado e Doutorado em Educação da Univali | Professor Visitante da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra | mluna@univali.br