SÍNDROME DO PENSAMENTO ACELERADO

SÍNDROME DO PENSAMENTO ACELERADO

PSICOLOGIA_O professor Elinado Quirino explica a Síndrome do Pensamento Acelerado, que atinge muitas pessoas atualmente.

TOPO MATERIAS_PENSAMENTO ACELERADO

O cantor Lulu Santos, em sua música Tempos Modernos, canta: “Hoje o tempo voa, amor, / Escorre pelas mãos, / Mesmo sem se sentir…”, retratando uma nova realidade dos dias atuais, o descasamento entre o tempo disponível e a nossa percepção dele, consequência do excesso de demandas diárias.

O homem, desde a Pré-História, procurou dominar o tempo, tentando-se deslocar cada vez mais rápido. Domou o cavalo, inventou a roda, criando as velozes carroças e carruagens. Com a Revolução Industrial e a invenção dos motores a vapor, elétrico, a gasolina e até a jato, a velocidade de deslocamento se multiplicou de forma estonteante. Isso começou a exigir mais esforço adaptativo dos nossos recursos mentais, como, por exemplo, adaptação aos fusos horários. Essa adaptação provoca o jet lag, que se caracteriza pela alteração do ritmo biológico após longas viagens, trazendo problemas físicos e psíquicos, devido ao distúrbio dos níveis hormonais de hidrocortisona.

A tecnologia da informação, desde o telégrafo até os dias atuais, vem-se multiplicando num piscar de olhos, e isso já começa a provocar um descompasso entre nossa capacidade de pensar e de processar as informações. Ficamos com uma sensação de impotência diante de tantas demandas. Daí um estranho paradoxo: no afã de ganharmos tempo, achamos que estamos perdendo tempo. Isso gera uma pressão para pensarmos mais rápido e intensamente, gerando um forte estresse mental. Passamos a viver num estado de hipervigilância, sem dar trégua ao nosso cérebro. Nossa mente e nossos pensamentos não têm mais direito ao ritmo natural de ação e repouso.

O pensamento nos torna conscientes da nossa existência no mundo. Conforme disse o filósofo, físico e matemático francês René Descartes (1596-1650): Penso, logo existo. Através do pensamento, posicionamo-nos e sabemos como reagir diante das novas situações da vida, ou podemos antecipar possíveis eventos desconhecidos. O pensamento nos faz explicar o mundo. Nós só explicamos o que compreendemos, e, quando compreendemos algo, reduzimos muito a nossa ansiedade, pois o desconhecido nos causa medo; por outro lado, o conhecido nos dá relativo controle sobre as coisas, reduzindo nossas inseguranças.

O excesso de ativação dos pensamentos leva ao estresse psicológico. Quando isso acontece, os mecanismos mentais subconscientes aprenderam, ao longo de milênios, que, se está pensando muito, o indivíduo está em perigo. Daí a elevação da ansiedade com consequente redução da qualidade do pensamento. Buscando compensar essa baixa de pensamentos mais produtivos, o indivíduo ansioso força seu cérebro, tornando os pensamentos ainda mais acelerados, criando um ciclo vicioso de estresse psicológico.

A Dra. Marilda Lipp, do Instituto do Stress, em São Paulo, demonstrou que o estresse psicológico se caracteriza principalmente por: aumento súbito de motivação ou de iniciar novos projetos, sem, necessariamente, ter algo concreto para pôr em prática; dúvida quanto a si próprio e suas potencialidades; pensar constantemente num só assunto; falar muito sobre um só assunto; eventualmente, vontade de fugir de tudo e também irritabilidade sem causa aparente. Tudo isso provoca diminuição da qualidade do sono, e as consequências físicas começam a aparecer.

Na década de 1980, com o início da revolução da internet, profissionais da saúde mental já identificavam um distúrbio denominado “doença da pressa”, mais tarde também chamada de síndrome do pensamento acelerado. Na verdade, trata-se de um transtorno do estresse, provocado pelo excesso de exigência de conhecimento e adaptação às novas tecnologias. Suas principais características são: elevada ansiedade antecipatória, dificuldade de relaxar e, principalmente, dificuldade de controlar os pensamentos intrusivos e mórbidos. Nesses casos, o corpo pode até relaxar, mas o pensamento continua gerando novas ideias, na maioria das vezes improdutivas e dispersas. Pensamentos automáticos e disfuncionais do tipo: “Se eu não fizer isso bem feito, sou um fracasso”; “As pessoas estão vendo que eu não sou tão bom”; “O que vão pensar de mim?”; “Eu tenho de ser exigente”, entre outros.

Existem pessoas com maior suscetibilidade ao estresse psicológico. São as que têm um padrão de comportamento denominado de Personalidade Tipo A. Elas têm como principal traço a atitude contínua de busca de objetivos a qualquer custo. São pessoas competitivas, que se envolvem em múltiplas funções, são incapazes de relaxar, têm insatisfação crônica com o que fazem, sempre querendo ir além.

Já os indivíduos com Personalidade Tipo B mostram características opostas. Os pensamentos não aceleram na mesma intensidade. Não apresentam níveis significativos de aborrecimento ou irritabilidade, rancor ou impaciência. As demandas ambientais são iguais, ou seja, o volume é grande e as exigências crescentes, mas eles sabem selecionar melhor os pensamentos funcionais. Normalmente, são mais seguros e firmes.

Como lidar com os pensamentos acelerados? Primeiro, devemos considerar que podemos, e devemos, pensar rápido, resgatando e processando dados da memória, de forma ágil e precisa. Tudo isso, de acordo com a necessidade de cada momento. O problema se dá quando não há estímulos ou demandas presentes, e, mesmo assim, os pensamentos permanecem a mil por hora.

Hoje, podemos dizer que, principalmente, todos os gerentes e executivos, jornalistas, escritores, publicitários e professores têm maior probabilidade de sofrer desse tipo de transtorno. Mas todo e qualquer indivíduo que está no mercado de trabalho, neste mundo tão competitivo e mutável, pode ter seu pensamento acelerado além do normal. Um pequeno exemplo de que você pode ter o transtorno é o da porta do elevador: ela parece demorar uma eternidade, e, quando você entra, já aciona o botão de fechar, muitas vezes deixando para trás outras pessoas.

Quando você começar a perceber que seu dia deveria ter mais horas que o normal; que a rotina o esmaga e você tem a sensação de que sempre deixou de fazer algo, mas não sabe exatamente o que é; que você não consegue ter atenção focada, porque os pensamentos invasivos não o deixam dedicar maior atenção ao que faz; que sua memória começa a falhar mais do que o esperado, trazendo irritabilidade e frustração; que ainda não esteja tendo tempo para o lazer e o afeto com as pessoas que ama, então pode ser que você esteja tendo elevado estresse psicológico ou o que se chama de síndrome do pensamento acelerado.

Como reduzir o ritmo do pensamento para um limite razoável ou funcional? Nós pensamos o tempo todo. Não há como parar de pensar, mas os pensamentos devem sofrer variações de ritmo e intensidade, em função do momento ou do lugar que estamos vivenciando. Imagine o pensamento como um veleiro. Quando a situação exigir, devemos abrir mais velas, aumentando a velocidade do veleiro. Quando não, vamos recolhendo as velas, até deixar o barco singrando de forma suave.

Algumas dicas:

  • Use alguns distraidores de pensamentos, tais como: assistir a filmes agradáveis ou engraçados, ler bons livros;
  • Comece a dizer “não” ao que precisa ser dito;
  • Converse mais com pessoas de padrão leve e otimista de ideias. Não guarde para si seus problemas. Eles são grandes aceleradores de pensamentos;
  • Faça agendamento de momentos de ócio total. Hoje, ficar sem fazer nada tem sido uma prática cada vez mais rara;
  • Monitore seus acessos às redes sociais de forma a não os tornar em comportamentos compulsivos;
  • Escolha um período para fazer um “tecnojejum”, abrindo mão totalmente da TV e de todos os equipamentos conectados à internet, por um período significativo (num final de semana, por exemplo);
  • Aprenda e pratique diariamente técnicas de relaxamento e, principalmente, de meditação;
  • Pratique atividade física; de preferência, um esporte coletivo;
  • Tenha visão otimista sobre a vida. Somos bombardeados com notícias ruins todos os dias, deixando de contemplar as coisas boas da vida e das pessoas;
  • Estabeleça limites para você próprio em sua agenda de trabalho. Ser bom profissional não é trabalhar muito: é, antes, fazer bem feito o que se propõe;
  • Participe de atividades de lazer com periodicidade. Cinema, teatro, praia, barzinho, café, passeios, etc.;
  • Seja tolerante com seus erros e com as críticas. Você é, e sempre será, um ser em constante aprendizagem;
  • Expresse mais atitudes de amor pelas pessoas. Carinho, atenção, cuidado e interações positivas criam padrões mentais positivos.

*Publicado originalmente na Acrópolis Magazine 91

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Elinaldo Quirino Leal | (83) 3225.8575
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