OS TRABALHOS ACADÊMICOS EM NOTAS

OS TRABALHOS ACADÊMICOS EM NOTAS

EDUCAÇÃO_Marcelo Luna fala sobre produção acadêmica.

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Ao término de períodos letivos, estudantes e professores devem, ao menos, refletir acerca do grau de pertinência de sua produção acadêmica com um curso de graduação, perguntando-se objetivamente: “Esse trabalho de final de semestre fui eu mesmo quem fez e / ou orientou, sendo resultado de minhas leituras, observações, pesquisas e discussões ao longo de sessões de estudos e de orientações?” Que notas posso hoje dar e aqui fazer, eu mesmo?

Reflexões e críticas nesse sentido precisam ser feitas não só pelos diretamente envolvidos mas por toda a sociedade, preocupada que deve estar com o pleno cumprimento das finalidades desse nível de ensino. Destaquemos uma dessas, todas expressas na Lei de Diretrizes e Bases da Educação – LDB 9.394/96: “incentivar o trabalho de pesquisa e investigação científica, visando o desenvolvimento da ciência e da tecnologia…” (Art. 43, III).

Tal destaque é devido, por ser essa uma finalidade que distingue a Academia desde, pelo menos, o surgimento das Universidades de Halle, em 1694, e de Göttingen, em 1737. Influenciada pelo ideal de educação da França, a Alemanha rompe com o padrão de doutrina estabelecida, derivado do lugar preponderante da teologia nos métodos de ensino, passando a adotar a filosofia moderna e a ciência como sua matriz. O princípio Libertas philosophandi define a busca pelo pensamento livre, pelo aprendizado através da pesquisa. O velho lectio – aulas para leitura e interpretação dos livros canônicos – cede lugar aos seminários, para a construção e discussão de estudos, derivados de observações e consultas a laboratórios, bibliotecas e outros ambientes acadêmicos. A criação da Universidade de Berlim, em 1810, realça o ideal de ser o ambiente acadêmico devotado à pesquisa e à instrução científica.

No Brasil, particularmente no presente, desvios desse ideal de universidade são facilmente encontrados. No geral, observa-se que instituições de ensino superior – IES têm elaborado e desenvolvido seus projetos pedagógicos de graduação sem o incentivo formal e sistematizado à pesquisa científica. São poucos os cursos universitários que mantêm uma política de incentivo à iniciação científica, para os estudantes literalmente se iniciarem no mundo científico, sob a orientação de um professor-pesquisador.

Uma das consequências do desvio maior, qual seja, a falta de incentivo à pesquisa na formação de boa parte dos mais de sete milhões de estudantes universitários do País, é a comercialização de trabalhos, notadamente aqueles de conclusão de curso. Há, de fato, compradores e vendedores da matéria acadêmica.

Os primeiros são estudantes e professores de duvidoso apreço pelo saber e de inexistente prática de investigação e produção científica. São estudantes e professores que se cobram apenas por uma nota ao longo do período letivo, tempo geralmente marcado pelo pacto “você finge que aprende e que eu ensino”. Assim contratados, a cobrança pela nota é comumente satisfeita pela entrega de uma encomenda, feita, até, por empresas especializadas.

Os vendedores são os especialistas em construção e uso de verdadeiros bancos de trabalhos, abrangendo assuntos, autores e níveis os mais diversos. São exploradores de um negócio que cresce na mesma proporção danosamente real, em que crescem as IES no País. O crescimento dá-se, daí o dano para os estudantes que este semestre se formam e para as gerações que os sucedem, sobre uma base em que o ‘superior’ não pode ser expressão sinônima de qualidade na organização didático-pedagógica dos cursos tampouco na produção científica dos respectivos docentes.

Minha nota final é que o trabalho acadêmico de orientação científica deve ser incentivado e construído como identificador de ensino de toda e qualquer instituição, de todo e qualquer curso. Como tal, implica a participação formativa, competente e responsável de professores-pesquisadores, de estudantes e dos gestores institucionais. Os trabalhos de cada disciplina bem como aqueles de conclusão de curso devem ser a expressão de uma formação longa e continuada, que precisa ser, em grau superior, adequadamente concebida, acompanhada, avaliada e valorizada.

*José Marcelo Freitas de Luna Doutor em Linguística - Universidade de São Paulo | Professor do Mestrado e Doutorado em Educação da Univale | Professor visitante da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra | mluna@univali.br

*Marcelo Luna

 

Doutor em Linguística – USP

Especialista em Administração Universitária – OUI

Professor e pesquisador do Mestrado e Doutorado em Educação da Univali – SC