A INDISCIPLINA NA DISCIPLINA

A INDISCIPLINA NA DISCIPLINA

EDUCAÇÃO_Marcelo Luna fala sobre a importância da disciplina.

Decido, finalmente, aqui escrever sobre indisciplina. Há muito quero falar sobre indisciplina na disciplina, qualquer que seja ela, esta e aquela. Minha decisão é motivada por textos escritos e falados que me chegam de professores com mais tempo na profissão, como eu, e daqueles que estão a se iniciar na docência. A indisciplina a que se referem tem expressões variadas; a disciplina, por sua vez, não fica atrás: pode ser a de português, matemática, artes, astronomia de posição, mecânica dos fluidos, musculação e ioga. A indisciplina multifacetada parece estar na gênese de toda e qualquer disciplina escolar, seja ela da educação básica, seja da superior, seja até mesmo daquelas dos chamados cursos livres.

A indisciplina há mais tempo mais aparente é aquela do estudante que não se mantém sentado a olhar para o professor enquanto ele ministra a disciplina, qualquer que seja. Ficar na carteira e prestar atenção são, pois, duas ações necessárias há, pelo menos, duzentos anos. Se esse comportamento se confunde com a instituição escolar no Ocidente, qual a razão para a falta de comportamento, para tanto “comporte-se”, para tanta indisciplina? Especialistas de diversas áreas tratam desse problema de pesquisa por hipóteses que variam de patologias — como o déficit de atenção —, passando por falta de educação doméstica — os pais não têm mais tempo para os filhos —, e chegando à escola, à aula, à disciplina — estas seriam pouco acolhedoras, nada interessantes, muito rígidas.

A indisciplina há menos tempo mais aparente é aquela do estudante que se mantém sentado, preferencialmente encostado à parede da sala de aula, a dividir seu olhar entre o professor e o seu celular, quaisquer que sejam. A posição, digamos, nas laterais do espaço físico serve para encostar boa parte do corpo e para carregar a bateria do dispositivo móvel. Se esse comportamento é de um estudante sentado na sala com um olho na aula do professor, qual a razão para a falta de comportamento, para tanto “guarde o celular”, para tanta indisciplina?
Especialistas de áreas específicas, como a educação, e, ainda mais especificamente, aqueles das tecnologias educacionais defendem que a aprendizagem é a razão de ser da tecnologia e que a indisciplina tende a se render à disciplina dos cursos com um design inovador.

Mesmo pouco simpático àquilo que é referido como inovador, motivo-me a conhecer e revelar a argumentação em torno dos cursos que levam os estudantes à disciplina. Para tanto, valho-me de Pedro Demo, em particular do seu livro “Educação Hoje: ‘novas’ tecnologias, pressões e oportunidades”. O foco desse autor está sobre a web 2.0 e os processos de autonomia e autoria que essa tecnologia deve sustentar. Esses processos devem ser objetivados por se identificarem diretamente com a atividade de pesquisa — fundamento docente e discente. Para Demo, o “aprender bem” se dá pela “elaboração, construção / desconstrução / reconstrução de conhecimento” e se respalda na web 2.0, que se define a partir da arquitetura de novos softwares, exatamente aqueles que permitem ao usuário assumir a condição de coprodutor de textos multimodais. Trata-se, assim, da possibilidade de autoria, que se apresenta como tal àquele estudante que decide não copiar, não reproduzir, não plagiar. Para Demo, um curso inovador constrói-se por uma relação que leva o aluno a aprender a estudar, sob a perspectiva da pesquisa e da elaboração contínuas.

A indisciplina continua na gênese da disciplina. Mesmo antes de 2009, ano de publicação da obra aqui referida, que pesquisas e estudos, cursos e aulas vêm sendo desenvolvidos a partir da ideia de que a mediação tecnológica faz o estudante sentar e prestar atenção, não jogando bolinha de papel, tampouco tijolo na sala de aula; de que faz os pais terem tempo para os filhos, não confundindo educação com escolarização; de que faz a escola, a aula, a disciplina ser acolhedoras, sem ser libertinas. A indisciplina tende a se render à disciplina — vêm-se comprovando os trabalhos teóricos e práticos há mais de dez anos — se ações igualmente multifacetadas forem tomadas e mantidas pelos estudantes, seus pais e suas escolas, com maior ou menor fluência tecnológica.

*José Marcelo Freitas de Luna Doutor em Linguística - Universidade de São Paulo | Professor do Mestrado e Doutorado em Educação da Univale | Professor visitante da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra | mluna@univali.br

*Marcelo Luna

Professor e Pesquisador do Mestrado e Doutorado em Educação – PPGE/Univali
Investigador do Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais – CEMRI/Universidade Aberta
Professor Visitante da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra