DEPOIS DO FINAL FELIZ

DEPOIS DO FINAL FELIZ

PSICOLOGIA_A comunicação como alimento do amor, por Elinaldo Quirino

Aquela jovem, 32 anos, graduada em economia, empresária de sucesso no ramo da moda, tinha tudo para ser feliz, mas sentia que lhe faltava algo. Até que, num dia qualquer, na fila do cinema, um homem de 38 anos se dirigiu despretensiosamente a ela e perguntou algo sobre o filme em cartaz. Começaram uma conversa tão agradável e repleta de interesses mútuos, e que se seguiu por outros filmes, passeios, viagens e… casamento. Ela finalmente encontrou alguém que a compreendia e conversava como ninguém. Mas, não tardou muito, aquelas conversas agradáveis logo se transformaram em longas discussões do relacionamento.

Nem toda a relação tem início numa paixão tão intensa, mas todas têm um começo quase sempre muito empolgante. Nessa fase, o diálogo flui de maneira leve e intensa. Nunca duas pessoas conversam tanto, com tanto grau de concordância e confiança. Tudo isso porque, na fase da paixão, a nossa percepção fica focada na pessoa amada, e parece que tudo gira em torno dela. Nossa percepção do tempo fica alterada, um dia é muito pouco para tanta vontade de ficar juntos e de conversar. Como ela fala coisas boas! Como suas ideias combinam com as minhas! Como eu gosto de estar perto dela! Parece que adivinha os meus pensamentos.

A paixão ou entusiasmo inicial, com suas respectivas alterações emocionais e cognitivas, constituem um conjunto de comportamentos e sentimentos que movem a existência humana. Do contrário, as pessoas não se aproximariam com tanta disposição para o amor. Por isso, na fase da conquista, ficamos totalmente voltados para o outro, atribuímos-lhe elevadas qualidades e tentamos-lhe agradar da melhor forma possível. Ficamos extremamente seletivos para as suas qualidades e minimizamos quase todos os seus defeitos. Do contrário, a relutância frente ao desconhecido afastaria as pessoas, e poucos casais se formariam.

Aprovação, aceitação e concordância são os elementos mais presentes na fase inicial, que são também favorecidos pela química da paixão. Tudo muda, tudo assume outra dimensão: com a paixão, o mundo fica repentinamente maravilhoso, diferente e mágico. A dopamina, o neurotransmissor da alegria e da felicidade, além de outros diretamente relacionados com o humor e a motivação, são liberados no organismo de forma generosa. Apetite, memória, concentração e sono se alteram ao tempo em que ficamos agitados, corajosos, otimistas, leves e extremamente motivados para a interação com as pessoas, especialmente com a pessoa amada.

Essas sensações experimentadas no começo de um relacionamento amoroso tem um papel importante. Espera-se que as maravilhas dessa fase tenham desenvolvido vínculos no casal que deem sustentação às etapas seguintes. Não por acaso, escutamos em consultório de psicologia afirmações como: “O que mantém nossa relação é a imagem que tenho dele, dos primeiros meses da nossa relação” ou “Ela mudou muito, nem parece a mesma pessoa.” É preciso entender que, com o passar do tempo e a maturidade do relacionamento, os interesses do casal mudam para outras conquistas, quase sempre voltadas para o casal e para a família. A exclusividade para a pessoa amada deixa de existir, sem que isso tenha de significar frustração de não conseguir ver no outro aquela dedicação e aquela perfeição antes percebidas. Na fase anterior, um estava voltado para o outro; agora, ambos estão voltados para questões menos românticas como trabalhar, ganhar dinheiro, cuidar dos filhos e planejar o futuro. A escassez de romantismo dessa fase não deve ser entendida como desinteresse, mas, sim, como mudanças evolutivas necessárias.

Vamos voltar ao caso daquela jovem (fictícia) do começo deste texto. Depois de poucos anos de casamento, ela chega para o seu parceiro e diz: “Precisamos conversar sobre nossa relação.” Ele, de forma irritada, responde: “De novo! Não aguento essas discussões do relacionamento. Você, antes, era doce e meiga; agora, só me cobra e me põe culpa o tempo todo!” Os estudos elaborados por Albert Ellis (1913-2007), psicólogo norte-americano, aponta que grande parte dos casamentos tem possibilidade de terminar em divórcio, principalmente por falha na comunicação, decorrente da incompreensão de que as coisas mudam e de que o entendimento dessas mudanças é a chave para a estabilidade da relação.

Ter uma conversa sobre a dinâmica do casal, ou, como se costuma dizer no senso comum, “bater uma DR”, é uma necessidade quanto ao objetivo, mas não deve ser um problema quanto à maneira de fazê-lo. Podemos dizer que a DR (discutir a relação) pode ser um remédio ou um veneno, dependendo da quantidade e do conteúdo. Quando tem foco na acusação e na cobrança, a conversa turva a compreensão do outro que, ao invés de procurar entender, vai tentar defender-se, contra-atacando ou fugindo.

A predisposição para uma conversa é fundamental para a resolução dos conflitos. Depois de algum tempo de relacionamento, devido aos naturais conflitos da relação, e cessado o investimento emocional da conquista, a comunicação do casal apresenta várias falhas de interpretações. Quem antes me ouvia com atenção e me entendia como ninguém agora me critica. Essa frustração distancia o casal, que passa a ter diálogos equivocados, repletos de distorções cognitivas, como, por exemplo, a “leitura de pensamentos”. A leitura de pensamentos consiste em deduzir o que o outro pensa, baseado no nosso estado emocional defensivo ou depreciativo, e não exatamente nas suas verdadeiras intenções. Por termos um aparelho psíquico falível, ficamos predispostos aos erros de interpretação e ao exagero. Quando estamos insatisfeitos na relação, tendemos a rotular, de maneira arbitrária, o comportamento do outro: é uma pessoa egoísta e insensível, quando, na verdade, se trata de uma pessoa amedrontada e triste.

Verifica-se que os casais que permanecem com menos conflitos e com maior expressão de sentimentos nas suas interações têm, pelo menos, quatro comportamentos básicos que se inter-relacionam: assertividade, processo empático, tolerância e exigências ou expectativas compatíveis.

Temos dificuldade de assumir, de forma assertiva e autoconfiante, os nossos próprios erros, ou de dizer, de forma serena, como nos estamos sentindo diante do outro. Por isso, partimos para acusações e atribuições de culpas. Muitas vezes, só dizemos o que gostaríamos de dizer quando estamos com raiva, e isso sempre é muito ruim. Deveríamos falar o que sentimos de forma direta, objetiva e tranquila.

O processo empático é um fator fundamental para as habilidades sociais. Para melhor chegarmos a um consenso, devemos procurar entender como o outro se está sentindo e vendo a situação. Nos relacionamentos íntimos, somos mais exigentes e menos flexíveis ao usarmos nosso sistema de decodificação de mensagens na comunicação interpessoal, pois focamos muito no que queremos e quase nunca no que o outro pode dar. Quanto mais intenso for um relacionamento, mais esperamos do outro. Por não acharmos que estamos recebendo amor, carinho e atenção, deixamos de dá-los, e isso reduz muito a possibilidade de sermos empáticos.

A tolerância é o terceiro fator importante. Ser tolerante não é ser conformado ou permissivo. É, antes de tudo, esperar o momento adequado para tratar de um assunto tenso e polêmico. Com os ânimos acirrados, seremos machucados e machucamos. É importante saber que a precipitação de conclusões ou a esquiva podem estar relacionadas com estados tais como depressão e ansiedade. O processamento de informações nesses estados nos leva a pensar de forma inadequada, parcial ou mesmo incorreta. Sob raiva, medo ou tristeza, chegamos a conclusões instantâneas, baseados em fragmentos de evidências. Por isso, devemos sempre avaliar todas as evidências antes de partir para uma ação. A raiva intensa leva até trinta minutos para declinar do seu pico emocional. Por isso, vale a pena ser tolerante e esperar um pouco mais.

As expectativas movidas pelo excesso de romantismo masculino ou feminino quase sempre provocam um desnível entre o comportamento revelado e o manifestado. Por exemplo: o marido prepara um belo café da manhã para a esposa, mas não põe uma rosa na bandeja. Ela, sonhadora, não percebe que, para ele, prático, aquele era um evento de elevado romantismo. Vale muito avaliar as expectativas quanto às intenções e gestos. Fiquemos mais atentos às atitudes duradouras e menos às palavras ou gestos excitantes e fortuitos. Às vezes, um pequeno gesto de atenção vale mais que milhares de “eu te amo”.

DICAS:

  • Perguntas esclarecedoras devem dar lugar às acusações.
  • Discutir relação por redes sociais é sempre inadequado. As emoções são muito complexas para ser transmitidas sem gestos, tons de voz e expressões faciais.
  • Espere os ânimos arrefecerem para conversar de forma mais adequada.
  • Entenda que a relação passa por fases. Adote inicialmente atitude positiva e consensual, antes de se sentir ameaçado.
  • Reclamações, cobranças ou acusações são destruidoras. Primeiro, escute; depois, entenda; e, finalmente, argumente.
  • Não diga o que o outro tem de fazer; diga como você se sentiria se ele fizesse.
  • Homens e mulheres têm modos ligeiramente diferentes de pensar. Essas pequenas diferenças, se não compreendidas, podem gerar grandes divergências.
  • Mantenha sinalizadores periódicos de romantismo ao longo da relação. A vida prática não deve eliminar as atitudes de carinho e romantismo.
  • As discussões de relação, muitas vezes, são provocadas por insatisfações decorrentes da falta de atenção romântica. Um carinho não custa nada e mantém a relação harmoniosa.
  • Tenha foco no amor. Respeito, cuidado e cumplicidade são valores que só se obtêm ao longo de uma convivência com um bom nível de comunicação assertiva.