ALIENAÇÃO PARENTAL, POR ELINALDO QUIRINO

PSICOLOGIA_O fim de uma relação é quase sempre desesperador. São muitas perdas implícitas e explícitas. No afã de evitarmos essas perdas, muitas vezes desconhecemos o fator mais importante de uma família, os filhos

O fim de uma relação é quase sempre desesperador, mais ainda par um dos lados. São muitas perdas implícitas e explícitas, de caráter psicológico e social. No afã de evitarmos essas perdas, muitas vezes desconhecemos o fator mais importante de uma família, os filhos.

Os efeitos da separação conjugal, assim como a morte de um dos pais, se não forem bem conduzidos, evocarão sentimentos de desamparo ou abandono para os filhos, deixando-os em situação de elevada insegurança. Ocorre que, muitas vezes, o lado que não tomou a iniciativa da separação deixa de lado os cuidados com os filhos, focando no retorno da relação matrimonial à condição anterior. Para tal, pode adotar desde atitudes de barganha, chantagem emocional, intermediação de pessoas próximas (incluindo filhos) até o confronto direto, com atitudes deliberadamente hostis.

Uma das consequências dessas atitudes é a Alienação Parental (AP). Trata-se de um fenômeno que tem sido cada vez mais discutido e divulgado, sendo, na verdade, tão antigo quanto as separações conjugais, mas que hoje tem recebido maior atenção. As primeiras consequências ocorrem quando os cuidados e a atenção com as crianças cessam ou são negligenciados. Elas são diretamente atingidas em todas as fases desse conflito: no período que antecede a separação, pelas constantes brigas e agressões; durante a separação, pelo fogo cruzado das disputas, pelos jogos de acusações e culpas; e também após a separação, pelo ódio, pelas sabotagens e pela depreciação mútua, motivados pelas culpas e pelo orgulho próprios feridos. Os filhos, que esperavam ver seus pais se amando e unidos para cuidar deles, agora os veem digladiando-se. Nada mais doloroso e cruel para uma criança.

A AP é uma forma de abuso no exercício do poder parental em que um dos pais (ou ambos) mente, calunia e tenta afastar o filho do antigo parceiro ou parceira, com o objetivo de obter alguma vantagem. Pode-se dizer que isso ocorre principalmente por quatro motivos, todos os quais ou alguns dos quais podem acontecer simultânea ou separadamente. Primeiro, o medo de perder o amor e a atenção dos filhos, levando o pai alienador a tentar conquistá-los para “a sua causa”. Segundo, o sentimento de culpa e a busca de justificativa para os seus possíveis erros, sendo que, nesse caso, o alienador vai tentar mostrar para os filhos que a atitude e o comportamento inadequado do outro foram a causa da separação. Terceiro, defender-se de possíveis ataques. Para isso, contra-ataca, mostrando outros defeitos supostos ou reais do parceiro. O quarto e último fator ocorre quando o alienador, com o objetivo de vingança e castigo, procura denegrir ao máximo a imagem do outro diante dos filhos, como forma de torná-lo persona non grata para esses.

O despreparo e a imaturidade emocional dos pais levam-nos ao extremo do medo, do desespero e da insegurança no momento da separação conjugal. O medo reduz a percepção de tudo o que não seja utilizado para livrar-se das ameaças, e isso leva às mais diversas situações alienadoras. A tentativa de afastamento dos filhos vem ditada pelo inconformismo do cônjuge com a separação, e que é agravada pela insatisfação com as condições econômicas advindas do fim do vínculo conjugal. Quando se trata do fim da relação pela presença de uma relação extraconjugal, as reações são ainda mais agravadas.

No ocorrência do rompimento do casal, predominam dois comportamentos básicos, um de cada lado da separação. O lado que tomou a iniciativa, para ser aceito diante de uma decisão julgada “tão absurda” pelo seu ciclo social imediato, procura justificar seus atos impondo ao outro a culpa pela sua tomada de decisão. Isso não é de se estranhar, uma vez que somos educados na cultura da culpa, que não busca as causas e resoluções dos problemas. Procura, sim, os culpados para puni-los. O lado que foi deixado, por sua vez, passa a se defender de forma agressiva, tomado ainda mais pela sensação de desprezo, ou tenta mostrar o erro do outro, no afã de fazê-lo reconsiderar, ou, ainda, rebate as acusações com outras acusações cada vez mais ferinas.

Os prejuízos começam com um aspecto fundamental nas relações interpessoais, que é a comunicação. Os pais deixam de se comunicar de forma civilizada, e, por isso, deixam de falar de assuntos de interesse comum, entre os quais estão os temas relacionados com os filhos: rendimento escolar, agendamento de consultas médicas, ocorrência de doenças. Esses e outros aspectos importantes dos cuidados com os filhos são ignorados, trazendo prejuízos diretos, além de deixá-los com a sensação de que os pais não se interessam mais por eles. Receber desatenção e presenciar brigas, para nós como adultos já é uma experiência ruim, imagine quando isso acontece com uma criança, vindo dos próprios pais!

A criança ou o adolescente precisa ter a imagem dos pais preservada de forma predominantemente positiva, pois, para a consolidação do desenvolvimento de sua personalidade e formação do seu caráter, há necessidade de ter modelos parentais positivos e reforçadores.  A forma que um filho percebe seus pais é, e deve ser, diferente da forma que os pais percebem um ao outro. Os conflitos e as diferenças afetivas vividas pelos cônjuges, na maioria das vezes, não dizem respeito aos filhos, sendo, portanto, desnecessário que eles se envolvam.

É preciso que, independentemente das causas ou culpas, os pais entendam que submeter seus filhos a tamanha tortura poderá ocasionar uma série de transtornos com repercussões pelo resto de suas vidas. Déficit de habilidades sociais, isolamento afetivo, tristeza e depressão, comportamento hostil, falta de organização, dificuldades de concentração e aprendizagem, irritabilidade, transtornos de ansiedade, enurese, transtorno de identidade ou de imagem, sentimento de desespero, culpa, dupla personalidade, inclinação ao álcool e às drogas, e, em casos mais extremos, ideias ou comportamentos suicidas. Afastar, repentinamente, uma criança do genitor com o qual mantém intensa aliança pode ser fonte de grande sofrimento para ela. É preciso buscar medidas que garantam o direito da criança à ampla convivência com ambos os pais após o rompimento conjugal. Entende-se que se devem privilegiar medidas que venham a evitar que tais alianças se instalem, reconhecendo-se que a adoção da guarda compartilhada como modalidade principal de guarda nos casos de separação conjugal pode vir a facilitar a compreensão da importância do convívio da criança com ambos os pais, mesmo que estes estejam separados.

É bom lembrar que o casamento deve ser, a priori, para sempre, e pode acabar por vários motivos que já conhecemos, mas ter um filho é um compromisso indissolúvel. Cuidar dos filhos numa relação conjugal estável é a condição ideal, mas os cuidados com os filhos vão muito além de manter um casamento. O amor entre cada pai e seus filhos não existe necessariamente pelo amor entre os pais.

As observações em consultórios de psicologia infantil demonstram que os filhos preferem que o ambiente familiar esteja organizado da seguinte forma: os pais vivendo juntos, amando-se e se respeitando. Caso isso não seja possível, que os pais, mesmo separados, se respeitem e se comuniquem em benefício dos filhos. O que eles não querem é que os pais, mesmo casados, se odeiem e se agridam. A pior situação é que os pais estejam separados e se odiando. Isso eles não querem, e ninguém deveria querer!

Alguns comportamentos devem ser observados em caso de separação conjugal, quando o casal tem filhos:

  • Usar os filhos como argumento para a manutenção de um casamento sem amor é sempre a pior opção para todos;
  • Não há separação conjugal sem sofrimento, mas vocês podem contribuir para diminuir muito os seus efeitos, começando com o respeito mútuo;
  • Digam para os filhos que vocês, os pais, estão tendo algumas dificuldades, podem-se separar, mas que os amam e que cuidarão deles, mesmo separados;
  • Pratiquem a guarda compartilhada, cuidando que ela comece já no início dos conflitos;
  • Procurem evitar as brigas na frente dos filhos. As brigas de separação são sempre muito sérias e reveladoras de situações altamente indesejáveis para os filhos;
  • É cruel envolver diretamente os filhos nos conflitos: evitem usa-los como mensageiros, principalmente de notícias ruins ou recados depreciativos;
  • Ao iniciar um novo relacionamento, deixe claro os papéis de cada um, considerando principalmente a necessidade de comunicação entre você e o ex-parceiro, como aspecto importante para manter os cuidados e a educação dos filhos;
  • Procure um profissional para orientá-los na condução dos conflitos conjugais, já que, nessas horas, o grau de comunicação assertiva diminui consideravelmente.

*Texto publicado, originalmente, na Acrópolis Kids 13