JÁ CHEGUEI: BEBÊS PREMATUROS

JÁ CHEGUEI: BEBÊS PREMATUROS

PEDIATRIA_Eles são frágeis, pequenos e precisam do carinho dos pais para se desenvolverem fortes e saudáveis

A cada ano, no Brasil, mais bebês nascem prematuros. Esse número cresceu 27% em dez anos (entre 1997 e 2006). Dados do Ministério da Saúde (MS) apontam que os nascimentos pularam de 153.333 para 194.783. Essas crianças nasceram com menos de 2,5 quilogramas e passaram até mais de três meses numa UTI. No mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 13 milhões de crianças nascem prematuramente todos os dias. A maioria das gravidezes tem uma duração de 40 semanas ou, o que é o mesmo, 280 dias. Considera-se um nascimento de termo quando o bebê chega ao mundo com uma margem que pode oscilar entre as 37 e as 41 semanas.

Os recém-nascidos são considerados prematuros quando nascem com idade gestacional inferior a 37 semanas. De acordo com a pediatra Ana Moema Albuquerque, na maioria dos casos, os bebês prematuros vêm de uma gestação de risco: mães com infecções, principalmente urinária, hipertensão arterial, gravidez múltipla (gêmeos), diabetes gestacional ou outras alterações que o obstetra já monitora com o pré- natal.

Porém, apenas 30% dos casos de nascimentos prematuros têm explicação médica. Entre as principais situações atualmente conhecidas que podem levar à prematuridade, encontramos a depressão, a ansiedade, a exposição à poluição, o estresse, a  violência social e doméstica, as  infecções e o aumento no número de cesáreas programadas, em que podem acontecer erros de avaliação da idade gestacional.

Segundo dados do MS, o percentual de bebês nascidos com baixo peso em partos cesarianos aumentou de 7,7% para 8,6% entre 2000 e 2007. Em partos normais, essa proporção não passou de 7,8%. “Nem todo bebê prematuro nasce com baixo peso, mas o baixo peso é uma possível complicação da prematuridade”, diz Ana Moema.

Os bebês prematuros têm um aspecto muito característico: pele avermelhada, coberta de lanugo, uma penugem especial do feto, muito fina, que permite ver os vasos sanguíneos mais grossos. Em geral, ao nascer, podem pesar entre 1,8 e 2,5 kg, mas é possível que pesem menos. Abaixo dos 2 kg, trata-se de um “grande prematuro”. No entanto, alguns nascem com um peso bastante próximo do de um bebê de termo, embora com o mesmo peso. Por exemplo, o bebê prematuro com 2,7 kg é diferente, devido ao fato de os seus órgãos não terem completado ainda a sua maturação.

A pediatra Ana Moema explica que, além do baixo peso, outros fatores de risco podem estar associados a um bebê prematuro, como desconforto respiratório, infecções neonatais, anemia, hemorragia intracraniana, tudo causado pelo nascimento antes do período em que o bebê realmente adquiriria a maturidade efetiva para o nascimento.

“De todas as maneiras, é provável que o bebê que nasce com um peso de 800 gramas e 26 semanas de gestação esteja mais bem preparado para enfrentar as dificuldades do que aquele que pesa 600 gramas, ainda que tenha uma idade gestacional de 28 semanas. Isso se deve ao fato de a capacidade de adoecer estar mais relacionada ao peso que ao tempo de gestação”, diz.

O bebê prematuro, em geral, permanece durante certo tempo numa incubadora. Trata-se de um aparelho cuja  temperatura é mantida constante e no qual o bebê pode receber oxigênio para facilitar-lhe a respiração. Como está mais propício a contrair infecções, o prematuro tem, na incubadora, o ambiente ideal para os seus primeiros dias de vida. “Quando nasce com menos de 1,8 kg, o bebê é geralmente colocado na incubadora até que ganhe peso. E se nasce com um peso maior, passará igualmente uns dias ali para ver como se adapta ao meio”, afirma Ana Moema.

Devido ao fato de os seus orgãos não se encontrarem totalmente maduros depois do nascimento, o pequenino deve receber cuidados especiais, que podem durar desde poucas semanas até vários meses, de acordo com o grau de imaturidade.

“A assistência para o pré-termo é a mesma para qualquer bebê, pois o Pediatra deve estar preparado em qualquer nascimento para uma intercorrência, porém deve haver uma UTI Neonatal pronta para a necessidade de transferir esse bebê após toda e imediata assistência na sala de parto”, explica a médica.

Bebês cujos pulmões não estão suficientemente preparados e bebês que, pelo seu escasso desenvolvimento, não têm força muscular para respirar sozinhos devem receber assistência respiratória mecânica.  É importante estar sensível à situação dos pais que sonharam durante a gravidez com um bebê no seu retorno para casa, e que, muitas vezes, se frustram.

“Recém-nascidos extremos, menores que 30 semanas, podem permanecer por até três meses no hospital. Isso acontece até adquirirem maturidade para sugar o seio, alcançarem um peso mínimo de dois quilos, tratarem infecções ou outras complicações. Há bebês que são tão prematuros que iniciam a dieta endovenosa, depois passam pela enteral (com sondas) para, só em seguida, conseguirem sugar e então mamarem no seio materno”, lembra Ana Moema.

Uma dúvida muito comum entre as mães de bebês prematuros é se terão leite. Não devem desesperar-se: se o peito está estimulado, produzirá a quantidade suficiente de leite para alimentar seu bebê. Nesse período, a mãe pode manter a produção fazendo regularmente o esvaziamento dos seios, manualmente ou com bombas de tirar leite. Mesmo não sendo tão eficientes quanto a sucção do recém-nascido, esses métodos são capazes de manter a lactação. A mãe deve-se alimentar adequadamente, beber bastante líquidos e procurar repousar sempre que possível.

Os bebês prematuros têm facilidade em pegar doenças infecciosas e em ter problemas para respirar. Isso porque o sistema imunológico e o pulmão do bebê só amadurecem no fim da gestação, entre a 37.ª e a 42.ª semana.

“Para estimular o desenvolvimento da criança, deve entrar em cena uma equipe multidisciplinar: uma fisioterapeuta, para a parte motora; uma fonoaudióloga, para melhorar a sucção; e uma terapeuta ocupacional, para cuidar dos pés e das mãos”, diz a pediatra, completando que indispensável mesmo é o colo dos pais.

Quando, finalmente, saem do hospital e vão para casa, é preciso também alguns cuidados especiais. É interessante manter o ambiente aquecido, entre 22ºC e 23ºC. Crianças menores precisam de estímulo por mais tempo, como é o caso de bebês que nascem com menos de 1 kg. Calcula-se o desenvolvimento subtraindo as semanas que faltaram para completar a gestação: se o bebê nasceu com 28 semanas, por exemplo, ele vai estar dois meses atrasado em relação a um bebê nascido a termo. O esperado é que ele se equipare ao de uma gestação completa aos 2 anos e meio.

Em todo o caso, o melhor que se pode fazer por um nascimento prematuro é evitá-lo. E a futura mamãe deve saber que isso depende, em grande parte, dos cuidados durante a gravidez. Daí, a importância dos controles médicos rigorosos, antecipados e periódicos. Muitos dos transtornos do desenvolvimento neurológico do bebê, assim como as sequelas durante os primeiros anos de vida, alterações visuais ou diminuição da audição, podem ser prevenidos se forem detectados a tempo.

Carlos Artur: Uma história de vitória

Segunda gravidez. Desde o início, já complicada. A cada mês, a cada ultrassonografia, uma notícia pouco agradável era dada: placenta de inserção baixa; nível de cardiolipina significante; proteína S presente – o que aumenta o risco de trombofilia, podendo causar perda fetal. Por isso, uma vez diagnosticada, iniciei com o uso diário de uma injeção – Clexane – para evitar a coagulação do sangue e, consequentemente, a formação de trombos; e, pelo aumento do líquido amniótico, detectado em ultra, uma possível diabetes gestacional; sangramentos, que acarretavam internações para acompanhamento.

Por todos esses motivos, o repouso absoluto foi indicado, sob pena de piores complicações. Cada dia era uma vitória. Cada semana, então, motivo de agradecimento. Apesar dos problemas, a criança se desenvolvia bem. E assim foi até a 34.ª semana. Madrugada do dia 20 de julho de 2011, deu início a uma hemorragia intensa, a chamada DPP (Descolamento Prematuro da Placenta).

Nessas horas, o atendimento tem de ser rápido e ágil, pois a placenta vai descolando até cortar totalmente o oxigênio para o bebê, levando-o à morte. Em muitos casos, a mãe também chega ao óbito, devido ao grande fluxo de sangue perdido. E aí, pela segunda vez, Deus interveio com maestria e rapidez, fazendo tudo dar certo, trazendo Carlos Artur ao mundo. Nasceu com 34 semanas, pesando 2,180 kg e 46 cm. Na medicina, considerado de baixo peso. Causa: DPP – Descolamento Prematuro da Placenta, com placenta de inserção baixa durante todo o período gestacional .

Tudo foi muito rápido, porque, numa situação como essa, tempo é vida. Nasceu chorando forte. Seu rostinho foi colado ao meu logo ao nascimento.  Terminado o procedimento, já no apartamento, foi dada a notícia: bebê na UTI. Insuficiência respiratória, completamente entubado. Em um momento como esse, o mundo desaba. É onde se sente a impotência do ser humano, mas, por sua vez, a força de Deus. É uma situação dolorosa, difícil, massacrante. Confesso que, se não existe uma crença numa Força Superior, as coisas se tornam piores, até mesmo insuportáveis. Mas foram momentos, também, de superação e ensinamentos.

E essa batalha durou 22 dias. Foram, sem dúvidas, os piores e mais tristes dias de nossas vidas; contudo, a confiança nAquele lá de cima era maior. O clima da UTI, apesar de todos os esforços da equipe médica em tentar amenizar nossa dor, é desgastante. Os tubos de respiração, os bips, as máquinas…  tudo assusta! Nosso contato com ele era pouco. Devido aos tubos, ele não podia ser retirado da encubadora, não possibilitando a prática da mãe-canguru. Sua alimentação era feita através de sonda. O manuseio das enfermeiras era muito cauteloso, pois tudo baixava sua saturação. Era um ser frágil fisicamente, mas de uma força descomunal espiritualmente. Suportou bravamente, mais que a gente, todas as furadas para acesso às veias. Ficou com o corpo todo roxinho.  Além da respiração insuficiente, nasceu com duas cardiopatias: Persistência do Canal Arterial (PCA), doença congênita que pode matar se não tratada a tempo. Acontece porque o canal que separa a circulação do coração para os pulmões não se fecha depois do nascimento; e  Comunicação Interatrial (CIA).

Além disso, convulsões e uma deficiência na estrutura craniana que, segundo os médicos, poderia acarretar em retardo no desenvolvimento neurológico. Por ter ficado muito tempo entubado, alimentado-se por sonda, foi necessária a intervenção de uma fonoaudióloga para estimular a sucção.  Durante todo o período de internação, ia ao hospital duas vezes ao dia para visita e retirada do leite materno.

Foram dias de exaustão. Ao chegar ao hospital, no andar em que ficava a maternidade, meu coração acelerava em um misto de medo e ansiedade. Recepcionistas e seguranças já me conheciam. A cada evolução, as lágrimas eram inevitáveis, e corriam em profusão. Choros e preces foram as práticas mais comuns durante todo o período. A evolução foi lenta, mas bem favorável e animadora. As visitas eram estritamente restritas aos pais.

No dia 11 de agosto, quando cheguei ao hospital pela manhã, como fazia costumeiramente, recebi a notícia de que ele estava de alta. Tamanha foi a alegria que não sabia o que fazer. Ri, chorei, agradeci. Apesar de estar liberado, contava apenas com 1,910 kg. A recuperação agora seria em casa, pois ele já estava apto hemodinamicamente a viver no ambiente familiar, livre de incubadora, fios e seringas. Naquele momento, o que mais ele precisava era de AMOR! As visitas, por conselho médico, foram restritas no primeiro mês em casa. A imunidade ainda era frágil. Os cuidados com a alimentação redobrados: a cada duas horas era alimentado. A limpeza do ambiente era essencial. O uso de polivitamínicos aconselhado. A realização de exames e consultas foi frequente. Todavia, mais frequentes foram as demonstrações de carinho, apoio e orações dos amigos e parentes.

Digo que Carlos Artur foi muito bem amparado espiritualmente. Paralelamente a tudo isso, ainda tinha de dar atenção ao primeiro filho, de apenas 2 anos e meio, à época, nascido igualmente prematuro, com 36 semanas, e da mesma causa: DPP.

Hoje, por ordem médica e pelo meu histórico clínico, estou inapta a outras gestações, pela grande probabilidade de maiores problemas numa futura gravidez. Carlos Artur está, hoje, com 4 meses e meio, completamente saudável. Milagrosamente, as cardiopatias sumiram sem necessidade de nenhuma intervenção. Seu desenvolvimento neurológico está em perfeitas condições. Ultrapassou os níveis da medicina pediátrica, como peso e altura. Nunca teve, sequer, uma gripe. Alimenta-se lindamente. Sorri e dá gritinhos de alegria. É um anjo. Foi dor, mas hoje é sorriso. E por tudo isso, só tenho que agradecer ao Criador e à Dra. Adriana Leite, que me deram o livramento e a oportunidade de trazer ao mundo duas criaturinhas para chamar de MEUS FILHOS.

Carla Lucena

*Texto publicado, originalmente, na Acrópolis Kids 07