CIÚMES DE VOCÊ, POR ELINALDO QUIRINO

PSICOLOGIA_Até o rei Roberto Carlos já cantou sobre ele. É um sentimento tinhoso, que perturba e tira o sono de qualquer um

Alguns chegam a camuflá-lo com cuidado, preocupação… Outros até dizem que ele é o “tempero do amor”. Quando se fala em ciúme, todos sabem do que se trata, mas, quando pedimos para alguém explicar, a coisa muda, as afirmações são sempre inconclusivas. O ciúme é muito mais que apenas um sentimento. É um conjunto de múltiplas reações emocionais (ódio, inveja, desejo de vingança, vaidade, inferioridade, orgulho, medo e ansiedade intensa) provocadas pela percepção do indivíduo diante de uma ameaça — real ou imaginária — de perda para um rival, principalmente em uma relação amorosa. No seu estágio patológico, o ciúme é uma injustificada e insistente suspeita à fidelidade do parceiro, a qual modifica pensamentos, sentimentos e comportamentos de quem a sente. É por toda essa complexidade em entender o ciúme e lidar com ele que a Acrópolis Magazine convidou o professor e psicólogo Elinaldo Quirino, para falar desse sentimento! Até o rei Roberto Carlos já cantou sobre ele. É um sentimento tinhoso, que perturba e tira o sono de qualquer um.  Alguns chegam a camuflá-lo com cuidado, preocupação…

Outros até dizem que ele é o “tempero do amor”. Quando se fala em ciúme, todos sabem do que se trata, mas, quando pedimos para alguém explicar, a coisa muda, as afirmações são sempre inconclusivas. O ciúme é muito mais que apenas um sentimento. É um conjunto de múltiplas reações emocionais (ódio, inveja, desejo de vingança, vaidade, inferioridade, orgulho, medo e ansiedade intensa) provocadas pela percepção do indivíduo diante de uma ameaça — real ou imaginária — de perda para um rival, principalmente em uma relação amorosa. No seu estágio patológico, o ciúme é uma injustificada e insistente suspeita à fidelidade do parceiro, a qual modifica pensamentos, sentimentos e comportamentos de quem a sente.

É por toda essa complexidade em entender o ciúme e lidar com ele que a Acrópolis Magazine convidou o professor e psicólogo Elinaldo Quirino, para falar desse sentimento!

Acrópolis Magazine_Como o ciúme se manifesta?

Elinaldo Quirino_Para que o ciúme esteja, de fato, caracterizado, é necessário que estejam presentes os seguintes elementos: ser uma reação frente a uma ameaça de perda; existir um ou mais rivais (reais ou imaginários), e a reação visar eliminar o risco da perda, afastando as ameaças, ou tentando isolar o objeto amado do contato com os outros. O principal e o mais danoso elemento do ciúme é a desconfiança. O medo intenso de perder e de se sentir abandonado altera a percepção que o indivíduo tem do mundo, das coisas e das pessoas, gerando uma insegurança inquietante.  Outra manifestação típica do ciumento exagerado é a tendência, quase sempre dissimulada, de depreciar seu parceiro, provocando situações, para que ele se torne menos interessante,  proibindo roupas, cuidados corporais e até mesmo cerceando a sua alegria, na falsa crença de que, se o seu parceiro for desinteressante para os outros, ficará exclusivamente para si.

AM_A psicologia explica o ciúmes?

EQ_As pessoas que têm predisposição ao ciúme exagerado tiveram, em seu desenvolvimento psicológico, experiências desfavoráveis que comprometeram a sua autoestima, e presenciaram, ao longo de sua educação, ambiente em que o ciúme era causa de conflitos e experiências traumáticas de traição. Pessoas que passaram por uma experiência real de traição, como, por exemplo, na infância, os pais privilegiavam constantemente um irmão em detrimento dele, ou que foram traídas por seu parceiro amoroso, desenvolvem um comportamento de constante vigilância e desconfiança no atual ou nos próximos relacionamentos. Quando alguém é traído por aquele que mais deveria amá-lo, tem a confiança em si e nos outros seriamente comprometida.

AM_O ciúme é um sentimento mais feminino ou masculino?

EQ_O ciúme é um conjunto de sentimentos que se manifesta de forma mais definida no ser humano, independentemente do gênero sexual. As reações decorrentes desse ciúme são o que muda nos gêneros masculino e feminino. Nos homens, as reações de ciúmes estão mais ligadas à fidelidade sexual, por isso mesmo se manifestam de forma mais agressiva e violenta, ainda mais porque, para os homens, o sentimento de traição tem uma conotação de perda de poder. Já as mulheres sentem ciúmes mais ligados às questões afetivas, à perda do carinho, da atenção, da cumplicidade, da companhia e da proteção, por isso mesmo as reações, embora tenham forte conteúdo de agressividade, estão mais relacionadas com a tristeza e a solidão.

AM_O ciumento demonstra esse sentimento em tudo na sua vida?

EQ_Existem pessoas que são mais possessivas que outras e, por isso, apegam-se demasiadamente a tudo que está em seu domínio pessoal. Essa característica é adquirida por questões defensivas e envolve um cuidado excessivo com tudo o que lhe pertence. Todo ciumento é possessivo, uma vez que, no seu afã de não perder, passa a tratar as pessoas que amam como “coisas” que lhe pertencem. Por outro lado, nem todo possessivo é necessariamente um ciumento. Ter o controle e a posse sobre algo não é ciúme, e sim necessidade de reter, por medo da perda. Podemos dizer que a posse relaciona-se às coisas (domínio material), e o ciúme relaciona-se às pessoas (domínio afetivo).

AM_Como o parceiro pode identificar o ciúme no outro?

EQ_Os primeiros sinais vêm sob forma de mudança de humor, quando, sem motivos aparentes, o parceiro ciumento fica calado e observador, com o semblante pesado e irritado com pequenas coisas. Outros comportamentos mais evidentes são: perguntas sob forma de pequenos e despretensiosos interrogatórios, recusas para participar de eventos sociais sem motivos justificados, passar a falar mal de pessoa de sua convivência que pode, supostamente, ser ameaça ao relacionamento, ligar para o celular do parceiro e fazer perguntas inquiridoras, etc. Se esses fatos ocorrerem apenas por um pequeno período, digamos, uma pequena crise, não terá consequências tão graves, afinal, todo mundo tem seus momentos de maior insegurança. O ciumento mórbido possui comportamentos compulsivos de checagem, tais como examinar bolsos, bolsas, carteiras, checar e-mail, páginas das redes sociais, telefone celular, cheirar o corpo do parceiro, as roupas íntimas, revirar lixeiras e gavetas, contratar detetives na busca de qualquer indício de traição. Quando não encontra nada, o que normalmente acontece, passa a ter sentimentos de inferioridade e de arrependimento. Conviver com um ciumento mórbido é um desafio muito grande.

Não há muitas alternativas: negar as acusações é interpretado pelo ciumento como mais uma tentativa de enganá-lo; pedir para alguém confirmar seus argumentos de defesa ou justificativa não ajuda, pois será interpretado como cumplicidade com outras pessoas, para enganá-lo; concordar com alguns dos seus argumentos só para aplacar sua ansiedade é o maior dos erros, pois, além de você concordar com uma mentira, fortalecerá mais ainda desconfianças do ciumento. Uma posição firme e determinada é a melhor atitude, para lidar com um ciumento patológico. Aos menores indícios do ciúme mórbido, tenha uma atitude decidida em não aceitar o jogo, senão a sua vida se transformará em um inferno. Lembre-se de que o pensamento do ciumento é irracional.  Quando a pessoa, vítima de um ciumento, concorda com o fato de perdoá-lo, mesmo diante das agressões sofridas, está reforçando seu comportamento.

AM_O que divide o ciúme de uma doença?

EQ_Um cuidado simples, sem acusação ou ameaças, acompanhado de bom humor e carinho, ao sentir que um “invasor” está ameaçando seu território, é uma forma divertida e tranquila de expressar cuidado e atenção, desde que isso seja muito eventual.  É bom não usar esse zelo ou cuidado como pretexto ou desculpa para os comportamentos depreciativos do ciúme exagerado. É também muito importante que o ciúme não seja uma medida, para confirmar o amor do outro. Nem sempre a demonstração de ciúme é expressão de amor, na maioria das vezes, é mera manifestação de insegurança. Não expressá-lo de forma constante ou acentuada não significa falta de amor, significa, pelo contrário, segurança e respeito na relação.

Ocorre que, pelas razões já mencionadas, o indivíduo pode desenvolver o ciúme mórbido ou patológico, também conhecido como a “Síndrome de Otelo”, em referência ao romance “Otelo”, escrito em 1603, por Shakespeare, em que o protagonista, casado com a bela Desdêmona, cede às intrigas de seu subordinado Iago e, após vários pensamentos irracionais e perturbadores, por medo de perder e por desconfiança infundada e excessiva, mata sua inocente esposa e depois comete suicídio. No ciúme patológico, ocorrem alterações na percepção, na memória e na interpretação dos fatos, que vão do monitoramento dos passos da pessoa amada até os delírios celotípicos, que levam o ciumento a considerar como conclusivas e verdadeiras as evidências de infidelidade, a partir de ocorrências irrelevantes, e se recusam a mudar suas ideias, mesmo diante de informações e provas irrefutáveis em contrário. O que delimita o ciúme normal do doentio são as atitudes de respeito e a razoabilidade. O ciúme deixa de ser normal e toma contornos patológicos, quando deixa de haver respeito, quando começam as ameaças, quando os argumentos são baseados em suposições delirantes.

AM_Há tratamento para as pessoas que sofrem de um ciúme doentio?

EQ_Como muitos transtornos mentais, o ciúme patológico tem regredido de maneira bastante satisfatória, através de cuidados médicos e da psicoterapia. O modelo cognitivo-comportamental é bastante indicado, uma vez que trata do controle da ansiedade e proporciona a reorganização cognitiva, reduzindo as crenças disfuncionais. É interessante observar que o ciúme patológico tem manifestações parecidas com um transtorno obsessivo compulsivo, embora não o seja. As obsessões são os pensamentos e os delírios de traição, e as compulsões são as investigações e a checagem constantes da vida e dos atos do parceiro. O tratamento leva o ciumento a discriminar melhor as percepções a respeito de si próprio e do seu parceiro, de tal forma que possa elevar a sua autoestima, melhorar a autoconfiança e interpretar melhor os fatos cotidianos, eliminando os delírios e passando a ter uma vida satisfatória para si e para as pessoas do seu convívio. Encarar o ciúme doentio com seriedade é um dever do parceiro vítima do ciumento. Busque apoio dos familiares ou amigos, mas não adoeça junto. Não é justo se submeter aos mais humilhantes sacrifícios, para permanecer em uma relação infeliz, apenas para estar em uma relação. Viver a dois é a melhor das opções, desde que haja respeito à liberdade e à individualidade do outro.

AM_É normal não ter ciúme?

EQ_É desejável não expressar ciúmes de forma invasiva, mas um zelo carinhoso e um cuidado atencioso são saudáveis e necessários. Portanto, um pouco, mas bem pouco mesmo, desse veneno é bem-vindo. Por outro lado, fiquem atentos para a frase clássica do ciumento doentio: “só tenho ciúmes, porque te amo”, pois quase sempre isso não corresponde à realidade. Às vezes, o medo de perder e o ciúme são as únicas razões, para uma pessoa permanecer em uma relação.

AM_Os crimes passionais podem ser uma evolução de um ciúme doentio?

EQ_O estágio de agressividade e as alterações psíquicas decorrentes de um forte sentimento de autodefesa que acometem um ciumento mórbido têm levado, principalmente os indivíduos com predisposição agressiva, à violência extrema, culminando, muitas vezes, com o assassinato ou suicídio, basta ler as manchetes nos jornais. A legítima defesa da honra, tão alardeada nos tribunais da vida, não se justifica, é algo ultrapassado. A sociedade não pode admitir, de forma alguma, a morte por ciúme. Cada pessoa tem o direito de ser livre, para amar e ser amada. Fidelidade não é uma questão de obrigação, é um ato de escolha, é uma opção espontânea, baseada no amor e na cumplicidade entre duas pessoas.

*Texto publicado, originalmente, na Acrópolis Magazine 76